quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Jornalixo V ou de como os millennials "optam" por casas pequenas

Recorrendo ao sarcasmo para não chegar ao insulto face ao artigo do Expresso intitulado Millennials optam por casas mais pequenas, e sendo orgulhosamente millennial por opção, já que como é óbvio escolhi a minha data de nascimento, como todos os da minha geração, tenho também a dizer que no meio de tantas outras opções, além de optarmos por casas mais pequenas, nós millennials optamos também pela precariedade. Não satisfeitos com as condições de vida das gerações antecedentes, optamos por algumas condições piores, assim como optámos por habitar este planeta mesmo com as suas crises económicas, aquecimento global e recursos limitados.

Chamar à selecção de casas mais pequenas por parte da minha geração de opção é tão correcto como chamar opção à escolha do planeta Terra em vez de Marte para habitar. É um acto tão opcional quanto: escolher trabalhar a recibos verdes quando a outra opção seria não trabalhar de todo ou trabalhar de borla num estágio, escolher emigrar quando a outra opção é lidar com o que foi referido primeiro, escolher adiar outras opções de vida como casamento e filhos pelo que já foi referido e por várias outras razões. Tantas opções que temos. Não admira que sejamos uns mimados que não querem trabalhar e sair de casa dos pais e etc.

Este tipo de artigos faz parte de uma moda que tenho observado nos meios de comunicação, uma moda que consiste em tornar agradável, trendy e aprazível uma inevitabilidade mascarando-a de escolha ou tendência. Como é óbvio, se nos fosse possível morávamos em casas grandes. Mas não é. Duh.

Optar por casas pequenas é tão inevitável como eu agora pensar que devia ter optado por não ler o artigo.

Vanessa

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A cadeia alimentar moderna

Várias notícias hoje dão conta de que várias espécies de peixe têm confundido plástico com comida e por isso introduziram o plástico na cadeia alimentar. Ora, todos sabemos que na verdade o real responsável pela introdução do plástico na cadeia alimentar é o Homem, aquela criatura que está no topo dessa cadeia.

Por isso agora a cadeia alimentar moderna tem no topo e no fundo, indirectamente, o Homem. Diz a ONU que "se nada for feito e se continuarmos neste ritmo, em 2050 haverá mais restos de plásticos nos oceanos do que peixes." O que na verdade é aquilo que merecemos. Mas não é o que merecem todas as outras criaturas com quem "partilhamos" (aspas porque na realidade somos como um vírus destruidor) o planeta.

De acordo com a Organização das Nações Unidas, um milhão de aves e 100 mil mamíferos marinhos morrem todos os anos devido à poluição por plástico. Para colocar isto em perspectiva, segundo a Fundação Oceano Azul, são produzidos anualmente no mundo a mesma quantidade de plástico quando pesa toda a humanidade: 300 milhões de toneladas. É estimado que desse belo número, oito milhões acabem por habitar o oceano.

Como tudo o que diz respeito ao mundo moderno, so há pouco tempo começámos a medir as consequências da utilização do plástico, mas ele está aí, nos oceanos e até no nosso sal de mesa, como foi noticiado há pouco tempo. É mais uma das heranças do uso de combustíveis fósseis que se infiltrou no quotidiano. Continuamos, no fundo, como homens das cavernas, ignorantes e impávidos, mas agora com uma grande quota-parte de culpa. Quem semeia ventos, colhe tempestades. Quem semeia plástico, colhe nada. Passo a piada deste nada como substantivo e não como verbo, porque isto não tem graça nenhuma. Assim não há arca de Noé que nos safe.

Vanessa

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

E o sono o vento levou

Podia continuar a queixar-me do vento por si só, do barulho que faz que realmente não ajuda a embalar uma pessoa com insónias, mas entretanto e por ironia — ironia no sentido em que o vento viu-lhe dedicado aqui um post que fala precisamente do sujeito de todo este predicativo que se segue — os estores do meu vizinho de cima foram à vida. Não testemunhei o evento, mas tenho pena. Tenho pena porque hoje fui acordada com uma sinfonia de ferramentas, que não saberia precisar, proveniente do tecto no cimo da minha cama. 

Posto o desassossego que se seguiu, merecia ter estado na primeira fila quando o vento levou os estores aos meus vizinhos, a acreditar que foi mesmo isso que aconteceu. O ruído prolongou-se por espaços de tempo esporádicos ao longo do dia. Estão a ver como nos filmes de terror às vezes colocam uma música assim baixa e vibrante a anteceder fenómenos assustadores e uma pessoa fica em suspense porque nunca sabe quando é que esses fenómenos a vão assustar? Foi assim o meu dia. Sempre à espera da sinfonia, que culminou com uma orquestra, já a tarde ia avançada, de despojos atirados do primeiro andar cá para baixo.

O bom disto tudo é que hoje nem sequer dei pelo vento.

Vanessa

terça-feira, 8 de agosto de 2017

E tudo quer o vento levar

Eu sei que este vento tem explicação meteorológica, um anticiclone com mais um ingrediente qualquer. 

É tudo menos esta explicação aquilo em que penso quando os cabelos se me colam aos lábios de batom e o comprimento do lenço preso ao pescoço, para evitar resfriados que o vento gosta de cultivar na minha garganta, se vai enfiar entre as pernas e fico a parecer uma humana com cauda de cor de laranja.

Enquanto trabalho, o vento bate-me à janela como convite, mas depois é tudo menos convidativo quando meto os pés na rua. As persianas piscam os olhos e nunca ouvi um piscar de olhos tão sonoro como este. Parece-me antes que vou ficar sem persianas e depois lá se vai a privacidade de trabalhar junto à janela e poder espreitar os transeuntes sem eles me verem a mim, de pijama e caneca na mão e cabelo desgrenhado.

Este tem sido um verão muito esquisito, com vento e ar frio que se entranha pela frincha da janela e me faz beber chás. Os dedos gelam ainda antes de conseguirem alcançar o ritmo que o teclado pede. Vejo notícias de sol e praia, mas é tudo o que menos me apetece, porque parece outono ou um inverno em fase final.

É tudo. Só me queria queixar do vento.

Vanessa

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A culpa é toda dos Millennials

Lembro-me que quando era pequena, ainda antes de entrar para a escola primária, tinha queda para a má-criação. O irónico exemplo foi em certa ocasião a minha mãe me ter chamado má-criada e eu ter respondido pronta e atrevidamente: e quem foi que me criou? Lembrei-me eu disto porque dá impressão que todas as semanas há um novo artigo a passar para os Millennials a batata quente e a culpa de ela estar quente.

Os Millennials, geração milénio, Gen Y, ou como nos quiserem chamar, são seres alimentados a tostas de abacate, o que segundo o milionário australiano Tim Gurner (que começou a carreira com um empréstimo de 34 mil dólares do avô) é a razão pela qual não conseguem comprar casa. Seja qual for o sector que esteja a morrer, a culpa é deles. Filmes, guardanapos, golfe, diamantes, restaurantes. Tudo isto e muito mais, como mostra esta lista, está em declínio por causa destes Millennials. É como se eles quisessem acabar com o mundo.

Aquelas crises que precederam a minha geração foram culpa nossa. A inflação que nos impede de ter uma vida de gente crescida também é culpa nossa, porque comemos abacate no pão e vamos ao Starbucks e vamos a concertos e viajamos e compramos engenhocas e não queremos assentar nem ter filhos. Já agora, os cursos superiores que nos venderam como quase obrigatórios para termos o que os nossos pais tiveram com a idade com que acabamos os ditos cursos são afinal só uma forma de vivermos à conta dos pais por mais uns anos.

Não só isso tudo, como a julgar pelas caixas de comentários das notícias (incluindo as de outros temas que nem têm que ver com conflitos geracionais, como concertos e índices económicos sobre a compra de gadgets) a geração milénio é também são arrogante, preguiçosa, demasiado exigente, menos inteligente, mais dependente das tecnologias, e mal-educada. Ao que eu respondo da mesma forma que quando era pequena respondi certa vez:  e quem foi que nos criou? Aqueles da geração anterior que agora os criticam, está claro. Que agora vão chamar-me arrogante. Mas pronto, sou Millennial, por isso tenho as costas largas.

Vanessa

Book Review | Waiting by Ha Jin

Set in the shadow of China's Great Proletarian Cultural Revolution, Waiting is an easy to read novel that describes the journey of Lin Kong, a doctor in the Chinese army that for 18 years tries to divorce his wife Shuyu to be able to turn official his platonic love for the nurse Manna Wu. While every year his attempts conclude in failure and Lin faces a number of setbacks, including his lack of confidence, this novel is more than a love story.

Ha Jin captures in this book the pressures of a political environment that Westerners cannot fathom, the dichotomies between the busy city life and the placid rural existence, human longing and human weakness, as well as the eternal question as to what love really means. Lin is attached to simple-minded, bound-feet Shuyu through an arranged marriage, but he yearns to be free and marry someone whom he loves, though he does not think he ever experienced true passion and I would even say he's the most passionless character I've ever read.

The story turns cruel and bleak at times, testing the main characters' patience and reason. Descriptions were minimal, though not lacking richness. They were mainly about changes in season, with broad strokes about characters and the political climate. Though interesting, I felt the story turned quickly into a satirical view on human desire and developed into an anti-climactic ending. It was an enjoyable read, nonetheless.

6/10

Where can you purchase this book?

Vanessa

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Aos avós

Os avós sempre foram para mim míticas criaturas sobre as quais fui ouvindo falar ou sobre as quais li, mas que raramente testemunhei. Sei que os avós são aqueles anciãos que raramente estão a par de como o dinheiro funciona e que por isso oferecem notas para comprar um geladinho, ou que acham que o tempo está sempre mais frio do que realmente está e que por isso aconselham agasalho, que se preocupam constantemente e que por isso admoestam juízo. Por vezes, os seus apelidos são acompanhados de um inho ou uma inha e passam a ser o avôzinho ou a avózinha porque só avô ou só avó não alcançam significado carinhoso suficiente.

O dia dos avós sempre me passou ao lado porque quase não conheci os meus e a avó paterna, a única que sobrevive à idade, está num fuso horário totalmente diferente. Agora com as redes sociais vejo os avós dos amigos e as suas dedicatórias. Tive oportunidade de conhecer os avós de alguns amigos, que me adoptaram temporariamente como neta honorária quando ia às suas casas. Mas em grande parte vivi e vivo em grande parte vicariamente a tradição dos avós, míticas criaturas generosas, experientes e preocupadas.

Tenho também memória de fábulas, como aquela em que a avózinha foi engolida por um lobo mau e sobreviveu, ou livros, como aquele em que a Anita vai de férias com os avós, ou filmes como a Heidi. Ainda assim, os avós são para mim mais do que ficção, mas não deixam de ser criaturas míticas com um dia que lhes é dedicado precisamente por o serem. E eu, que já conheci vários avós, valorizo este dia, porque eles merecem.

Vanessa

Hoje é o dia do escritor, mas não é o meu

É frequente que quem me conhece e me apresenta a outros diga o meu nome e logo a seguir uma profissão. Que não é a minha. Em Goa alguns pensam que sou jornalista, porque já fui e a minha mãe até já levou o meu nome impresso no cabeçalho de artigos que assinei. Por outro lado, outros pensam que sou escritora.

Cheguei à conclusão que é muito mais fácil arredondar os detalhes desta forma e deixei passar. Quando me apresentam como jornalista, não desminto; quando me apresentam como escritora, não desminto. A explicação para o facto de não ser nem uma coisa nem outra implica pisar terreno instável, dar uns pulos num fosso bem fundo, e abraçar a depressão. Logo a seguir, comiseração, consternação, condescendência.

Desde que me lembro que a minha identidade está ligada à escrita. Desde bem pequena que sempre quis escrever. Mas há muito que não me sento a escrever coisas minhas excepto neste blogue, criado para apaziguar certa amargura, abastecer o desejo recalcado, desabafar quanto baste, e de modo geral não ceder à frustração.

Os meus dias são passados a escrever ideias de outros para outros, a produzir conteúdo que não posso assinar, a aperfeiçoar o que não é meu de todo, e vivo muito bem com isso. Eu queria ser escritora porque queria não deixar de aprender e, está claro, não podia andar na escola para sempre. Por isso segui o jornalismo, depois exerci-o, depois exorcizei-o, depois fiz coisas que não têm que ver com jornalismo, para agora escrever coisas que não têm que ver comigo. Mas palavras são palavras e viver das palavras é um luxo.

É muito mais fácil fazer pelos outros aquilo que não posso fazer por mim. Assim não tenho nunca de lidar com a possibilidade de não saber o que escrever, de esgotar ideias, de ter de procurar sinónimos, de pensar no que os outros pensarão quando lerem o que escrevo, e de se calhar nem sequer ter talento.

Já não sei se escrever não terá sido um ideal construído ou se foi alimentado por vocação. Sei, sim, que para se escrever tem de se ler muito e nisso sou campeã. É por isso que hoje celebro o Dia do Escritor. Não por mim, mas por aqueles que me alimentam a imaginação e me fazem temer a ideia de juntar-me a eles.

Vanessa

terça-feira, 25 de julho de 2017

Avaliação Literária | O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy

Tinha este livro na estante há anos. Não sei precisar quantos e prefiro não pensar nisso para não ter vergonha. Acontece que já o tinha tentado ler pelo menos duas vezes. Mas agora, tendo já visitado parte da Índia, tive a certeza de que ia terminar de o ler. A verdade é que ainda bem que esperei para ler O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy, porque não o conseguiria apreciar em mais nova como o apreciei agora.

O livro conta a estória de três gerações de uma família em Kerala, na Índia. A narrativa poética desfaz-se nos olhos e prende a imaginação. Pareceu-me uma estória feita de pequenas crueldades e pequenos momentos de felicidade, exorcizada de uma mente estranhamente infantil como se todas as descrições tivessem sido construídas por uma criança extremamente inteligente. Não sei de que outra forma explicar o livro.

Pareceu-me uma estória sobre muito, mas o que para mim mais se fincou foram os amores proibidos. O de Rahel e Estha, gémeos biovulares, o da sua tia-avó por um reverendo, o da sua mãe, Ammu, pelo seu pai, e mais tarde por Velutha, o do tio Chacko por uma britânica, o amor dos humanos pela ordem das castas ou pela revolução. Tudo isto sob o olhar ou sob a sombra do deus das pequenas coisas.

É um livro que exige atenção a cem porcento e, no meu caso, uma folhinha e uma caneta para não me esquecer de todas as personagens e suas ligações. Há obras que valem a pena o esforço.

Por coincidência, fui ontem à Fnac e vi que Arundhati Roy lançou um segundo romance há pouco tempo, 20 anos depois deste. The Ministry Of Utmost Happiness. O nome é muito promissor.

10/10

Vanessa

Determinantes possessivos

Tenho especial apego por artistas e com esse apego um estranho sentimento de posse. É também um misto de orgulho e obsessão. Por exemplo, Paul Auster. Depois de ter lido o Palácio da Lua em adolescente e a Trilogia de Nova Iorque já na idade adulta, passei a consumir os seus livros. Quase literalmente e durante muito tempo quase exclusivamente. Tive a sorte de me apegar a um escritor prolífero. Mais tarde conheci Auster, a esposa (também escritora) e a filha (cantora) no Lisbon & Estoril Film Festival. Não houve grande interacção, excepto este ponto alto: a filha pediu-me lume e eu não tinha. Mas respirámos todos do mesmo ar naquela noite.

Sempre que oiço alguém falar de Paul Auster ou pegar num dos seus livros numa livraria, um pequeno demónio desdenha da pessoa. Olha para ela, nem deve sequer conhecer um quinto do que Paul Auster escreveu. Provavelmente nem sabe que em Oracle Night há uma menção a cadernos azuis portugueses que uma personagem comprou ou que Auster inventou um jogo de cartas. Eu descobri-o primeiro.

Em adolescente vi o filme Drácula 2001 alugado já em DVD num clube de vídeo. Não é o supra-sumo dos filmes de terror, mas deu-me a conhecer um actor, que por acaso me tinha passado ao lado numa mini-série chamada Átila. Nasceu uma fã do actor Gerard Butler. Nos inícios da internet, inscrevi-me num fórum de fãs. Conheci algumas delas. Esperei dois anos pelo Fantasma da Ópera, sem nunca o ter ouvido cantar, sempre atenta a novidades. Passei por toda a fase de reconhecimento de uma fama crescente. De ter de o dividir com outras fãs. De ver as salas de cinema dos seus filmes crescentemente mais cheias. De o ver em êxitos de bilheteira. De ter a sensação de que eu descobri-o primeiro, antes de ser tão famoso, e lhe vi o potencial.

Também em adolescente vi Memento, de Christopher Nolan. Já me desenrascava na internet, por isso encontrei o primeiro filme e o filme a seguir ao Memento, já com actores de calibre. Eu era fã. Agora sou super-fã.  Eu descobri-o primeiro. Nolan agora é famosíssimo. Mas eu descobri-o antes do sucesso da trilogia Dark Knight.  Vi Following sem restrições. Tantas, tantas vezes. Vi Memento de trás para a frente depois de o ver de frente para trás. Agora todos os fãs de Nolan se acotovelam para ver um filme cujo trailer não mostrou quase nada porque agora todos conhecem o seu potencial. Aquele que eu reconheci em primeira-mão.

Estes são alguns dos exemplos. Pode-se dizer que o que tenho são ciúmes e um sentimento de exclusividade que não me pertence. Afinal de contas, estas e outras personalidades alimentam um público e não interessa quem foi o primeiro a chegar à fila da frente. Ainda assim, eu tenho essa sensação de posse. Mas também de orgulho. Conhecia-lhes o potencial. Agora vejo-o nos olhos dos outros. Vejo o seu impacto nas respectivas indústrias. Ainda assim sou mais ciumenta com estes homens, e também mulheres (ficam para um outro post só dedicado a elas), do que o sou com qualquer outra relação que tenha tido ou que ainda tenha.

Na minha mente de fã alucinada, eles são meus primeiro.

Vanessa

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Excertos fantásticos e onde encontrá-los I

Frases aleatórias que fazem uma pessoa voltar atrás na leitura. Tiradas hilariantes, satíricas, profundas, interessantes, tristes, nostálgicas, curiosas. Estórias dentro de estórias que se calhar mereciam um livro próprio. Achei engraçado reunir aqui coisas deste género. São apenas uma amostra, mas merecem destaque. São pedaços de livros tirados de contexto, mas ainda assim cuidado com possíveis spoilers.

"Miss Mitten queixou-se (...) da mania de eles lerem de trás para a frente. Mandaram-nos escrever De hoje em diante não leio de trás para a frente. (...) Poucos meses depois, Miss Mitten foi atropelada por uma carrinha do leite (...) e morreu. Os gémeos viram um secreto sinal de justiça no facto de a carrinha do leite estar a fazer marcha-atrás." Em O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy.

Vanessa

Cinco meses depois

Disse a minha idade pela primeira vez. Desde que fiz 30, cinco meses passaram sem que alguém me tivesse perguntado acerca da minha idade. A semana passada veio cá a casa uma senhora fazer um inquérito e tive oportunidade de dizer que tenho 30 e de desfrutar do impacto que o número tem. A senhora bem que podia ter dito algo do género: "30? Não parece nada." Mas tudo bem. O meu prédio não tem luz automática, por isso estava escuro a maior parte do tempo e ela não conseguiu ver bem a minha cara.

Vanessa

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Jornalixo IV

"Ser vegetariano pode fazer mal à saúde" é o título de um artigo da Sábado que se baseia neste artigo do Independent. O jornal britânico enfatizou a qualidade dos alimentos vegetarianos, referindo que doces, bebidas açucaradas, grãos refinados e batatas podem aumentar o risco de problemas cardíacos.

Os escritores da Sábado decidiram extrapolar e combinaram dois estudos sobre vegetarianismo e o impacto deste estilo de vida em relação a doenças comuns, mas provavelmente nem se aperceberam da mixórdia.

A investigadora do estudo a que provavelmente a Sábado se refere originalmente e que dá título ao artigo, Dra. Ambika Satija, explicou ao Independent: "Quando analisámos as associações de três grupos alimentares ao risco de doenças cardiovasculares, descobrimos que vegetais saudáveis estavam associados a menor riso, enquanto vegetais menos saudáveis e produtos animais estavam associados a maior risco." A Sábado decidiu citar o médico Allan Williams. Que não faz parte deste estudo em específico.

O artigo de Allan Williams foca-se no significado do vegetarianismo e seus efeitos, mas não exclusivamente em relação a doenças cardiovasculares e não com base numa experiência, mas sim na citação de outros estudos. Curiosamente, ao pesquisar a publicação American College of Cardiology com a palavra chave vegetarianismo em inglês, na publicação onde os estudos de ambos os investigadores foram divulgados os estudos aparecem um a seguir ao outro, o que provavelmente levou à confusão dos escritores da Sábado.

A conclusão de ambos os investigadores são parecidas: nem todas as dietas vegetarianas são iguais e há alimentos vegetarianos pouco saudáveis. Parece-me óbvio. Refrigerantes e batatas fritas e pizzas podem ser veganos até. Não significa que sejam saudáveis. Infelizmente, o artigo da Sábado fugiu completamente à mensagem de ambos os estudos com um título sensacionalista e um artigo, a meu ver, tendencioso.

A publicação decidiu também copiar o modelo de artigo do Independent, mas logo no lead induz em erro: "Cientistas descobriram que alguns alimentos de origem vegetal aumentam risco de desenvolver problemas cardíacos. Conheça dez celebridades que, ainda assim, deixaram de comer carne e peixe".

Isto dá a entender que estas celebridades leram os estudos em questão e mesmo assim escolheram a via supostamente menos saudável, e que eliminar peixe e carne da dieta é o que faz do vegetarianismo uma dieta pouco saudável. Ao menos na legenda das fotos a mensagem parece mais positiva em relação ao vegetarianismo do que o título. Não deixa de ser triste esta salgalhada da Sábado, que ainda por cima é da autoria de duas pessoas, não apenas uma. Seria de esperar mais atenção e rigor. Não foi o caso.


Vanessa

terça-feira, 18 de julho de 2017

Nota 10 para Jane Austen

Na comemoração do 200.º aniversário da morte de Jane Austen, a autora de Orgulho e Preconceito torna-se a primeira escritora a figurar numa nota de 10 libras lançada pelo Banco de Inglaterra, que vai entrar em circulação a 14 de Setembro. A nota contém ainda uma citação interessante de uma das personagens criadas pela escritora, a detestável Caroline Bingley. "I declare after all there is no enjoyment like reading!

Só que a personagem de Orgulho de Preconceito nem era a protagonista e esta citação foi uma das suas manobras para conquistar o famoso Mr. Darcy. Já para não dizer que não tem nada a ver com nada num mar de tantas outras citações fantásticas. A prova? A seguinte foto mostra uma caixinha, oferecida pelo meu amigo R. Este tesouro contém 100 postais, cada um deles com uma citação de Jane Austen. Todas elas mais do que dignas para figurar numa nota. Todas elas bem melhores do que a que foi escolhida.

Vanessa

Dúvidas existenciais III

Como é que as mulheres que vão experimentar vestidos com fecho às lojas de roupa fazem para subir o fecho? Chamam uma funcionária? Têm braços de Homem Elástico? Não fecham o vestido?

Fui eu comprar um vestido a uma loja e nos provadores só havia dois homens-funcionários. Lembrei-me que podia prender um alfinete a um fio de nylon ou algo do género, fechar o alfinete na anilha do zip e depois, já com o vestido colocado, subir o fecho puxando o fio. Claro que só me lembrei disto na altura de deslizar o fecho do vestido quando só havia homens-funcionários nos provadores e os meus braços me pareceram curtos.


Vanessa

terça-feira, 11 de julho de 2017

Descubra aqui como transcrever manuscritos de borla e possivelmente ajudar a trazer o fim do mundo

A Biblioteca Newberry em Chicago, nos Estados Unidas, convoca voluntários com jeito para a transcrição de documentos em inglês e latim para que ajudem a tornar acessíveis manuscritos vários, incluindo livros com textos sobre magia, bruxaria, encantação e conjuração de espíritos. Mais informações no site oficial.

Este tipo de transcrição é voluntária. É também uma forma de criar uma interacção especial entre o público e estas raras peças. Muito pessoal de meados do século 15 não queria saber da produção em massa de livros através da tipografia, e manteve viva a cultura do manuscrito, razão pela qual agora os voluntários terão de invocar o seu lado filantropo para ajudarem nesta saga. Por outro lado, coitados, esta era uma forma de não atraírem a atenção da igreja e conseguirem disseminar variantes menos prezadas da religião.

A colecção Newberry conta com o manuscrito Book of Magical Charms, um manuscrito comum (era prática na altura reunir todos os interesses num caderno, e este em especial inclui assuntos do oculto) e Cases of Conscience Concerning Evil Spirits, da autoria do Puritano Increase Mather. As transcrições serão revistas por especialistas. O intuito é deixar os livros acessíveis na internet e na própria biblioteca.

Claro que parte de mim adora a ideia. A outra parte está claramente preocupada com toda esta acessibilidade a textos com o potencial de nos fazerem ter de chamar os Caça-Fantasmas (que ainda por cima agora são mulheres). A linha que separa a convocação de espíritos e a convocação de demónios é tão ténue quanto a que separa o mundo dos vivos do dos mortos. Outro problema é estes manuscritos lidarem com coisas que se calhar são invisíveis, por isso podemos não ter noção do estrago que estamos a fazer até ser tarde.

Esperemos que os demónios do passado permaneçam no passado. Já nos chega os que temos hoje. Mas bom, se o mundo tiver que acabar, que seja com magia, não é? Accio.

Vanessa

Compêndio de respostas contra iscos de cliques I

O meu Facebook volta e meia mostra-me links para artigos que até poderiam ser interessantes, mas como são prefaciados por iscos de cliques (não se esqueça do ponto número cinco ou fique atento a estes sinais) ou só porque urgem resposta, achei que fazia um favor à humanidade se reunisse aqui toda a informação.

Não vou ler os artigos. Vou simplesmente pegar no título como mote e dar seguimento.

Os 5 motivos mais frequentes para ser despedido do Dinheiro Vivo (ainda por cima é uma fotogaleria, ou aquilo a que chamo uma orgia de cliques).

Um. A empresa é portuguesa. 

Dois. Não há dinheiro (pleonasmo, se atendermos ao primeiro ponto).

Três. A pessoa é incompetente.

Quatro. O patrão não gosta na pessoa ou tem uma cunha à espera.

Cinco. O patrão chegou à conclusão que pode pôr um estagiário naquela posição.

Claro que os meus pontos são uma compilação da minha experiência (com a excepção daquilo de ser incompetente). Indubitavelmente, a razão foi quase sempre uma variante da segunda. Não há dinheiro. Nunca há. Numa das empresas onde trabalhei havia dinheiro de sobra para investir no departamento onde trabalhava, mas na semana seguinte já não havia e eu fui o elo mais fraco. Noutra, houve dinheiro para uma viagem de team building para todos os trabalhadores. Um mês depois não havia dinheiro para me terem lá. Se bem que nunca fui despedida. Simplesmente apenas não me renovaram o contrato. Desculpem lá o azedume. Juntei o útil ao agradável: fiz pouco de um artigo, já que não posso ser jornalista neste país, e ainda aliviei as azias do passado.

Vanessa

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Não dei a outra face

O meu tom de pele roça o caramelo e o camelo, mas com um toque amadeirado e uma nuance de mousse de chocolate. No que toca a escolher um cosmético para uniformizar esta estória toda, o caso complica-se, portanto. Quando a minha secretária se transforma em toucador, mais parece na verdade uma mesa de laboratório, porque tenho de e prefiro fazer as minhas próprias mistelas combinações. Tudo isto porque a bem dizer, o intuito é sempre parecer que o esforço foi mínimo e que saltei da cama para a rua com um rosto fresco.

Entretanto estou a cerca de duas semanas para ser madrinha pela segunda vez e decidi comprar um creme bê-bê, mas cheguei a uma loja Kiko e como até creme cê-cê havia (que raios é isto?) fiquei baralhada e pus-me a experimentar várias, mas fiquei confusa e a senhora perguntou-me se precisava de ajuda, e então perguntei se ela achava que o produto em questão me iria assentar bem, e ela disse que não, por isso peguei noutro.

Ela pega numa amostra, retira uma gota de creme, tudo isto em milissegundos, e antes que eu tivesse tempo de reagir, coloca-me aquilo na bochecha e toca de espalhar. Quem me conhece sabe que não gosto dessas confianças e gosto menos ainda que me toquem na cara, especialmente se não me perguntam primeiro se não me importo. Mas não me desviei nem fui mal-educada. Não só isso, como trouxe o produto, que aquilo tinha mesmo um tom caramelo e o camelo, mas com um toque amadeirado e uma nuance de mousse de chocolate, apesar de dizer na embalagem que era neutro e ter um número ao lado. No entanto, pode não ter sido nada assim e o produto pode ser uma porcaria, porque na verdade ainda nem o experimentei no rosto todo.

Continuo frustrada porque a senhora tinha uma plaquinha na mama esquerda a dizer que estava em formação e eu devia ter dito que não se toca nas pessoas sem pedir permissão, e ainda por cima oportunidades não faltaram, porque foi a mesma senhora que me aviou o pedido. Enquanto pensava nisto tudo, lembrei-me das lições de catequese, quando se dizia que temos de dar a outra face, e lembrei-me que vou ser madrinha.

Está bem que temos de dar a outra face, e neste caso devia mesmo ter dado para ver se o produto se adequa às circunstâncias da minha aparência, mas nem uma face nem a outra daria mesmo que me tivesse lembrado do cristianismo e das implicações de ter de dar um exemplo cristão a uma criança. Sou a modos que uma cristã selectiva. Mas como normalmente chego a ser agressiva quando invadem a minha zona de conforto e não fui nada agressiva com a senhora, considero a ausência de uma chapada um acto muito cristão neste caso.

Vanessa

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Os 10 mais lidos de Junho de 2017

A culpa é do ar

Já descobri por que razão não tenho muita sorte em geral. Um exemplo aqui

Fui a uma daquelas lojas com coisas místicas, como incenso, Budas, cristais, e até sabonetes, os mesmos que se vendem no Celeiro (vá-se lá entender). São o meu local preferido para comprar velas, estas lojas, porque sai sempre de lá alguma pérola. Já tive quem me lesse a aura (é púrpura, sinal de criatividade e misticismo), quem me dissesse que a minha alma data centenas de anos, quem me perguntasse se sou pianista (está perto, só que o meu teclado não solta ruídos muito musicais), e até quem previsse que ia chover num dia de sol (aconteceu).

Não sou de atribuir muito significado ao que dizem as velas ou às suas cores. Normalmente sou atraída pelo aroma, pelo formato, e acima de tudo pelo preço. Nesta loja em particular há muitas velas. A senhora tenta sempre explicar a que se destinam as cores e às vezes tenta que eu leve daquelas velas que também estão à venda nas lojas dos chineses, com rótulos como "Abre Caminhos" e "Sorte no Amor" e "Afasta o Mau Olhado".

Eu dessas compro nas lojas dos chineses porque são mais baratas, por isso optei por uma das outras, com umas cores genéricas. Por alguma razão e apesar de já frequentar esta loja há uns anos, assim muito de vez em quando, a lojista decide explicar-me que a vela, azul que era, tinha como intuito trazer tranquilidade e prosperidade, mas que para funcionar eu tinha de declarar a minha prece antes de a acender e depois não a podia apagar, muito menos com um sopro. A vela deveria arder até ao fim para cumprir a prece.

Pelos vistos, não só o sopro afasta o que a vela representa, como pode trazer distúrbios do foro espiritual. What?! Estas coisas deviam vir a vermelho e letras caixa alta no rótulo de todas as velas místicas. Em toda a minha vida, sempre apaguei com um sopro as velas, todas elas, até aquelas que prometem abrir caminhos e sorte no amor e afastar o mau olhado (apesar de não acreditar, são velas baratas e cheirosas, e se atraem coisas boas, por que não?), e só agora soube disto. Não admira que tenha azar no geral. Aliás, não sei como ainda não morri.

Quiçá conseguirei reverter todos estes anos de más práticas espirituais. Perdoem-me deuses, anjos, arcanjos, seres extraterrestres, sobrenaturais no geral. Nunca mais contaminarei as vossas boas vibrações com o ar proveniente dos meus pulmões. Agora preciso de encontrar uma vela para reverter o mal feito.

Vanessa

terça-feira, 27 de junho de 2017

20 Anos de Harry Potter

Recebi o primeiro livro Harry Potter quando ainda ia na primeira edição, tinha eu uns 13 anos fresquinhos, e ainda que tivesse na contracapa uma nota de 1000 contos, coisa que o meu tio fazia frequentemente como se um livro de presente não bastasse, o verdadeiro tesouro estava nas palavras que me cativaram desde logo. 

"O senhor e a senhora Dursley que vivem no número quatro de Privet Drive sempre afirmaram, para quem os quisesse ouvir, ser o mais normal que é possível ser-se, graças a Deus". 

Um minuto de silêncio pela rapariga de 13 anos, que se sentia um alienígena e ambicionava ser o mais normal possível, e que ao ler as palavras com que toda uma saga se desenrola chegou à conclusão que ser normal é aborrecido porque ser normal era ser igual aos senhores Dursley ou aos Muggles sempre alheios ao mundo da magia mesmo que um carro voador ou um hipogrifo planasse à frente dos seus narizes.

Os livros ensinaram-me mais do que os manuais escolares. Não é hipérbole. Anos mais tarde, estudei na mesma cidade portuguesa onde J. K. Rowling viveu e escreveu, o Porto. Usei o traje que inspirou a indumentária de Hogwarts. Vi todos os filmes. As estórias permaneceram comigo. Desde o quase anonimato do primeiro livro até ao sucesso mundial, tornei-me fã e passei a pertencer a uma família global de fãs que começou há 20 anos.

Já quis ser inteligente como Hermione, bem-humorada como Ron e corajosa como Harry Potter. Agora, com esta comemoração, podia sentir-me velha, mas não. O aniversário do Harry Potter dá-me esperanças de um dia ser e parecer tão sábia como a Professora Minerva McGonagall ou Dumbledore.

Vanessa

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Avaliação Literária | Kafka à Beira-Mar de Haruki Murakami

Kafka Tamura, um rapaz de 15 anos que não sabe da mãe e que aparentemente ouve vozes, foge de casa. Nakata, um sessentão analfabeto que fala com gatos, parte à aventura. Pelo meio há umas descrições na primeira ou na terceira pessoa que por vezes ligam as duas narrativas de Kafka e de Nakata, apesar de inicialmente não o parecer, ou que simplesmente causam mais confusão no leitor. Pelo menos nesta leitora.

O livro é abundante em diálogos filosóficos, personagens desenvolvidas de tal ponto que às vezes até lhes conhecemos detalhes mundanos e outros que preferíamos não saber (SPOILER: ficamos a saber que Kafka usa quatro quadrados de papel higiénico para se limpar, por exemplo), e vastas descrições.

Haruki Murakami é um autor de que gostava de gostar, mas que até agora, e especialmente depois deste livro, não me captou mais do que curiosidade porque, de facto, as suas criações são intrigantes. A realidade funde-se com uma ficção que toca no misticismo japonês e roça o fantástico e o sobrenatural.

Não é que não goste desses aspectos literários, mas normalmente distraem-me da narrativa, e porque Murakami neste livro começa com relatos objectivos, inclusivamente documentos oficiais do governo e cartas, ambos ficção, para depois deixar o leitor sem explicação... digamos, que não fiquei satisfeita.

Ao contrário de autores de culturas que me são distantes conseguem cativar a minha atenção com o imaginário de países longínquos, Murakami deixa-me frustrada pela falta de respostas e pela minha própria incapacidade como leitora para me afeiçoar às suas personagens. Nakata caiu-me no goto, mas Kafka nem tanto.

Gostei das várias referências musicais, as quais serviram como barulho de fundo à leitura. Graças a Murakami, tornei-me fã do Trio Arquiduque de Beethoven e ouvi novamente músicas como Kid-A de Radiohead.

Sinto que estou a tentar explicar-me aos eventuais fãs do autor, mas a verdade é que não me arrependo de ter lido o livro, várias questões fizeram-me reflectir e tão cedo não vou esquecer certos momentos. Talvez Murakami ultrapasse as minhas capacidades como leitura, e por mim tudo bem. Não é por isso que vou desistir de voltar à carga um dia. Sputnik Meu Amor não me deixou indiferente, por isso há esperança.

5/10


Vanessa

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Um passito para a frente, dois para trás

Vanessa vai toda contente trocar uma raspadinha, no meio de quatro ou cinco*, que a contemplou com o exorbitante prémio de um euro. Sentia-se milionária, como é óbvio. "Mas, Vanessa, tu não andas sempre a dizer que és uma pessoa azarada?" Calma, amigos. Continuem a seguir a narrativa.

Para não parecer gananciosa e porque os seus instintos estão estragados, Vanessa troca aquela por outra raspadinha e após alguma ponderação ainda compra outra, paga com uma nota de cinco e recebe troco.

Contexto: há uma tabacaria no fundo do supermercado e Vanessa caminhava em direcção à saída quando...

Como sempre, Vanessa faz malabarismos com as mãos e põe as moedas ao calhas na carteira, que diga-se de passagem já não vai para nova e tem uns buracos. Não se sabe se foi de um buraco que caiu ou se foi das mãos que escorregou uma moeda de um euro, claramente na fase rebelde da adolescência, que conseguiu deslizar para debaixo do armário dos medicamentos da primeira caixa do supermercado, junto à porta de saída.

Acontece que o espaço para onde a moeda deslizou é apenas suficiente para lá caber uma moeda ou um prego pequenino ou um bocado de cotão e um pedaço de algo que já fora comestível e muito pó. Vanessa sabe disso porque, por incentivo do polícia que testemunhou o acontecimento, que até pensava que a moeda era de dois euros, pediu à moça da caixa para lhe arranjar um pedaço de cartão e toca de tentar recuperar o investimento. Antes disso, tentou o feito com um panfleto. O investimento não foi de todo recuperável com um ou outro.

Vanessa ficou triste, especialmente porque na indecisão sobre o que vestir nesse dia, tinha-se decidido por umas calças também elas rebeldes, que gostam de deslizar perna abaixo, o que não tornou a tarefa de se agachar lá muito agradável, e pensando no perigo de mostrar partes anatómicas normalmente apoiadas numa cadeira o dia todo versus a perda de um euro, considerou a hipótese de deixar a moeda quieta, que se ela tinha tanto apego pelo armário, claramente era uma moeda em plena crise de identidade e precisava de um tempo.

Pensem nisto, amigos que não acreditam quando vos digo que tenho muito azar. Fui trocar uma raspadinha que tinha um euro, mas que tinha custado um euro. Depois troquei-a por outra e ainda comprei outra. Depois perdi um euro do troco. Junte-se a isto as outras quatro ou cinco raspadinhas das quais apenas uma tinha o prémio, fora as outras todas ao longo da vida compradas na esperança de um dia a sorte me abonar.

Vou ouvir a música do Frozen o dia todo para esquecer.

* Quero apenas explicar que normalmente não sou viciada em raspadinhas. O que acontece é que sempre que saio com amigos e eles pagam alguma coisa, para depois serem casmurros e não aceitarem que eu lhes pague, eu uso o dinheiro para comprar raspadinhas, que assim eles já aceitam. Toda esta série de acontecimentos desafortunados teve portanto como causa a M. não ter aceite que lhe pagasse há duas semanas. Agora a M. está de férias, por isso tive de vir para aqui desabafar o meu desfortúnio, quando devia estar a trabalhar para recuperar aqueles euros todos que já perdi em raspadinhas. "Let it go, let it go..."

Vanessa

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Wonder Woman foi uma maravilha

Finalmente uma heroína como deve ser. Finalmente uma mulher a realizar um filme de super-heróis. Finalmente um homem como personagem secundário. Finalmente cenas de luta credíveis com uma mulher. Finalmente pernas longas e fortes, não longas e com aspecto de braços. Finalmente emoção, mas também acção.

Já percebi a razão pela qual os homens me parecem sempre tão mais confiantes, entusiasmados e às vezes primitivos em relação às mulheres. Depois de ver uma mulher a dar cabo dos maus da fita em Wonder Woman, Mulher Maravilha em português, também eu me senti confiante, entusiasmada e pronta para qualquer luta.

Felizmente Diana, personagem principal, não é como o Batman e o Super-Homem, tão preocupados com a humanidade que evitam matar pessoas, mas depois nos últimos filmes são hipócritas e andam para ali a dar cabo de cidades inteiras. Diana não tem problemas em desatar à porrada e seja o que deus quiser. Maravilha.

Se quiserem um resumo do filme, aquilo é a estória de uma mulher criada por mulheres, todas fortes, musculadas e inteligentes, num mundo paralelo que é invadido por homens do nosso mundo em tempo de guerra. Essa mulher decide vir para o nosso mundo com um homem que lhe diz aquilo que pode ou não fazer. A mulher está-se nas tintas para o que ele diz e faz na mesma, e o assunto fica resolvido na maioria das vezes.

É pena que só em 2017 tenhamos um filme deste género com uma mulher super-heroína como protagonista. Mas finalmente posso perguntar a um homem, de forma condescendente como se quer, se foi ao cinema com a companheira ver o filme, em vez de ser o contrário porque dantes quase só havia homens em filmes de super-heróis, ou quando a pergunta era dirigida a homens, era porque se tratava de uma comédia romântica.

Generalizações e comentários preconceituosos à parte, este filme merece ser visto por mulheres e homens.

Vanessa

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Mas que drama, D.A.M.A.

"Se sim tasse bem, se não tasse bem também" escreveu a banda D.A.M.A. porque, e passo a citar da sua conta no Twitter, "Em Português, o Pretérito Imperfeito no Subjuntivo do verbo é Estasse, abreviado ‘Tasse." O tweet era mais longo, com uma frase em jeito de prefixo de mau humor em resposta à moça que lhes corrigiu o português com um simples "'Tá-se" na rede social: "Olá Sofia. Em que língua?" Como se não bastasse, ainda temperaram o comentário com uma bela de uma hashtag #thinkbeforeyouspeak (pensa antes de falares). 

Com contexto é melhor. Assim é o comentário inteiro: "Olá Sofia. Em que língua? Em Português, o Pretérito Imperfeito no Subjuntivo do verbo é Estasse, abreviado ‘Tasse. #thinkbeforeyouspeak". Verdade seja dita, a banda desculpou-se a Camões e à fã em questão, mas eu não consegui esquecer o caso. Em vez de recalcar o acontecido, a minha memória insiste em lembrar-me que há pessoas que não sabem usar um vocativo.

Um dos detalhes que me assombra foi ter visto uma ou duas notícias sobre todo o escândalo e ficar a saber que D.A.M.A., banda sobre a qual nunca gastei um pensamento, é uma sigla que agora associo a um erro de concordância: Deixa-me Aclarar-te a Mente Amigo. Por esta razão, refiro-me à banda D.A.M.A. em vez de dizer "os" D.A.M.A., caso contrário estou a dizer os Deixa-me Aclarar-te a Mente Amigo, e já basta a confusão que me faz não haver ali uma vírgula antes do amigo e estes moços terem sido arrogantes na sua ignorância.

Volto a referir que a banda pediu desculpas em público, na mesma rede social onde toda a questão se desenrolou na terça-feira, mas volto também a referir, caso não tenha ficado claro a quem lê este blogue, que o mau português me dá nervos gramaticais, facto que explorei neste belo poema e ainda neste.

A moral desta estória é com certeza pensar antes de falar, mas mais importante que isso, que da oralidade só reza a estória quando há pontos acrescentados, ou algo do género que eu também não sou perfeita, bem mais importante é pensar antes de escrever. Especialmente nas internet. Especialmente se forem famosos. Espero ter aclarado a vossa mente, OLHEM PARA ESTA LINDA VÍRGULA QUE SE SEGUE, amigos.

Isto ficou um pouco confuso para quem não acompanhou a estória, por isso está aqui uma notícia com os factos como se aprende na escola de jornalismo, como quês, quandos, comos, quems, etc. 'Tá-se bem?

terça-feira, 6 de junho de 2017

Buddha bowl ou de como o que sempre fiz tem um nome giro

Buddha bowl ou tigela do Buda é o nome que se dá quando se misturam generosamente vários componentes essenciais numa taça, nomeadamente hidratos de carbono, grãos, vegetais e/ou fruta, proteína e etc. 

Sempre o fiz mais ou menos assim, mas gostei do nome. Normalmente, quando faço refeições assim, mantenho-as veganas ou vegetarianas porque acho que ficam mais zen sem produtos animais.

Como preparo os ingredientes em separado e mantenho-os em caixas para construir os pratos, acabo por comer o mesmo com algumas variações ao longo da semana. Esta é a mais recente: arroz jasmim com cominhos, brócolos cozidos, couve lombarda e cenoura e cebola roxa temperados com coentros, feijão de caril, chucrute de compra (este, do Celeiro), meio abacate pequeno, uma pitada de pimentão vermelho e pimenta preta.
Nota: isto é um prato fundo, não uma tigela, porque não tenho tigelas giras nem fundas o suficiente.

Vanessa

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Em crescimento

É quando o nosso cérebro é precoce e nem tem capacidade para o perceber que vivemos os melhores anos das nossas vidas. É uma partida cruel. Um presente envenenado. Só quando chegamos a adultos é que percebemos a ironia do destino. Quando o tempo já foi, queremos é voltar para trás. Mas foi-se.

É o mesmo que termos quem nos diga que já fomos muito felizes, o mais felizes que vamos ser na vida. 

Só que não nos lembramos.

É o mesmo que estarmos a desfrutar da melhor refeição das nossas vidas, para depois vir o chefe de cozinha dizer que já comemos a sobremesa e que gostámos. Só que não nos lembramos. 

É estarmos no potencial criativo quando ainda nem sabemos usar o nosso cérebro na totalidade.

É para esquecer.

Tudo isto é muito deprimente. Está uma pessoa nos 30, não fez nem metade do que previa já ter concluído por esta altura, e calha ser dia da criança. Má onda. Pior: estava a tirar a roupa do estendal, que é virado para um parque infantil, e o meu pai perguntou-me se não queria ir lá abaixo brincar. Engraçadinho.

Para piorar, andei hoje mais do que num mês inteiro e está assim um frescote estranho. Resultado: sinto-me uma velha resmungona que prevê certos estados climatéricos nos ossos. E falhas de memória.

Vanessa