sexta-feira, 11 de novembro de 2016

As coisas novas estragam-se mais rápido do que antigamente

Intuitivamente sei que é verdade. As coisas que compramos hoje em dia parecem ter um tempo de duração mais curto do que coisas que comprámos há pelo menos mais de uma década. A lógica é pensar que desde a revolução industrial o material tornou-se mais fraco para diminuir custos de produção.

Mas e se os produtores estiverem a diminuir o tempo de duração dos produtos de propósito para acelerar o consumo? Não é um mito e tem um nome: obsolescência programada. Por vezes nem se trata da qualidade do material utilizado. Hoje em dia é comum aparelhos electrónicos ficarem obsoletos em matéria de anos.

A lâmpada do meu candeeiro de secretária fundiu-se em três anos, apesar de prometer oito anos. A verdade é que não importa os anos, mas as horas de utilização, que a embalagem me informou ser de 8000 a 10 000. Se presumirmos que é 8000, isso dá 1000 horas por ano ou umas duas horas e meia diárias de utilização.

As minhas noites são longas, por isso é claro que ultrapassei a medida. Conclusão, tive de comprar outra lâmpada. Desta vez escolhi uma da marca Philips, em vez de uma de marca branca, ainda que seja também economizadora e LED. Esta promete 10 000 horas. Presumo que daqui a três anos terei de comprar outra.

Nos Estados Unidos há uma lâmpada acesa há 115 anos, desde Junho de 1901, num quartel de bombeiros na Califórnia. É possível ver a lâmpada acesa em directo neste site. Já não se fazem coisas assim, não é?

Antigamente as meias de licra não rompiam como agora. As impressoras têm um chip que contabiliza o número de páginas impressas e bloqueiam depois desse número. O manual da minha máquina fotográfica garante 100 000 cliques de qualidade. Os telemóveis desactualizam no espaço de um ou dois anos.

São coisas que toda a gente que eu conheço instintivamente sabe, pelas conversas que temos. Este tipo de incentivo ao consumo não é saudável senão para quem vende os produtos, como é óbvio. Além disso, está cada vez mais difícil encontrar ocasiões em que reparar compense. Mais vale comprar novo.

Nos anos 1920s, o cartel Phoebus, decidiu encurtar a vida às lâmpadas, porque eram demasiado duradouras. Hoje em dia, a Philips, empresa que fez parte do cartel, lançou uma lâmpada LED que dura 20 anos. A família fundadora da Philips é agora abertamente contra a obsolescência programada. Eu cá não confio.

O lado positivo da obsolescência é a massificação dos produtos, o que baixa os preços e aumenta por isso o poder de consumo pelos estratos sociais mais baixos, e também o emprego que gera com a constante produção. O lado menos positivo é a falta de sustentabilidade. Pesem-se os pratos da balança. Valerá a pena?

Eu penso que não. Não me importava de ver mais produtos como o telemóvel modular da Google (conquanto se estandardizassem todas as peças) abrangidos a aparelhos vários, onde pudéssemos substituir apenas uma peça que falhasse ou repará-la, equipamentos que não ficassem fisicamente obsoletos tão facilmente (não falo de modas porque a isso não ligo) e, neste momento, uma lâmpada que nunca fundisse. Isso é que era.

Vanessa

2 comentários:

marta filipa costa disse...

(só para dizer que gosto muito de ler o teu blog, apesar de por vezes não ter muito a comentar.)

Vanessa S.S. disse...

(não faz mal, gosto da tua visita na mesma!)