terça-feira, 27 de junho de 2017

20 Anos de Harry Potter

Recebi o primeiro livro Harry Potter quando ainda ia na primeira edição, tinha eu uns 13 anos fresquinhos, e ainda que tivesse na contracapa uma nota de 1000 contos, coisa que o meu tio fazia frequentemente como se um livro de presente não bastasse, o verdadeiro tesouro estava nas palavras que me cativaram desde logo. 

"O senhor e a senhora Dursley que vivem no número quatro de Privet Drive sempre afirmaram, para quem os quisesse ouvir, ser o mais normal que é possível ser-se, graças a Deus". 

Um minuto de silêncio pela rapariga de 13 anos, que se sentia um alienígena e ambicionava ser o mais normal possível, e que ao ler as palavras com que toda uma saga se desenrola chegou à conclusão que ser normal é aborrecido porque ser normal era ser igual aos senhores Dursley ou aos Muggles sempre alheios ao mundo da magia mesmo que um carro voador ou um hipogrifo planasse à frente dos seus narizes.

Os livros ensinaram-me mais do que os manuais escolares. Não é hipérbole. Anos mais tarde, estudei na mesma cidade portuguesa onde J. K. Rowling viveu e escreveu, o Porto. Usei o traje que inspirou a indumentária de Hogwarts. Vi todos os filmes. As estórias permaneceram comigo. Desde o quase anonimato do primeiro livro até ao sucesso mundial, tornei-me fã e passei a pertencer a uma família global de fãs que começou há 20 anos.

Já quis ser inteligente como Hermione, bem-humorada como Ron e corajosa como Harry Potter. Agora, com esta comemoração, podia sentir-me velha, mas não. O aniversário do Harry Potter dá-me esperanças de um dia ser e parecer tão sábia como a Professora Minerva McGonagall ou Dumbledore.

Vanessa

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Avaliação Literária | Kafka à Beira-Mar de Haruki Murakami

Kafka Tamura, um rapaz de 15 anos que não sabe da mãe e que aparentemente ouve vozes, foge de casa. Nakata, um sessentão analfabeto que fala com gatos, parte à aventura. Pelo meio há umas descrições na primeira ou na terceira pessoa que por vezes ligam as duas narrativas de Kafka e de Nakata, apesar de inicialmente não o parecer, ou que simplesmente causam mais confusão no leitor. Pelo menos nesta leitora.

O livro é abundante em diálogos filosóficos, personagens desenvolvidas de tal ponto que às vezes até lhes conhecemos detalhes mundanos e outros que preferíamos não saber (SPOILER: ficamos a saber que Kafka usa quatro quadrados de papel higiénico para se limpar, por exemplo), e vastas descrições.

Haruki Murakami é um autor de que gostava de gostar, mas que até agora, e especialmente depois deste livro, não me captou mais do que curiosidade porque, de facto, as suas criações são intrigantes. A realidade funde-se com uma ficção que toca no misticismo japonês e roça o fantástico e o sobrenatural.

Não é que não goste desses aspectos literários, mas normalmente distraem-me da narrativa, e porque Murakami neste livro começa com relatos objectivos, inclusivamente documentos oficiais do governo e cartas, ambos ficção, para depois deixar o leitor sem explicação... digamos, que não fiquei satisfeita.

Ao contrário de autores de culturas que me são distantes conseguem cativar a minha atenção com o imaginário de países longínquos, Murakami deixa-me frustrada pela falta de respostas e pela minha própria incapacidade como leitora para me afeiçoar às suas personagens. Nakata caiu-me no goto, mas Kafka nem tanto.

Gostei das várias referências musicais, as quais serviram como barulho de fundo à leitura. Graças a Murakami, tornei-me fã do Trio Arquiduque de Beethoven e ouvi novamente músicas como Kid-A de Radiohead.

Sinto que estou a tentar explicar-me aos eventuais fãs do autor, mas a verdade é que não me arrependo de ter lido o livro, várias questões fizeram-me reflectir e tão cedo não vou esquecer certos momentos. Talvez Murakami ultrapasse as minhas capacidades como leitura, e por mim tudo bem. Não é por isso que vou desistir de voltar à carga um dia. Sputnik Meu Amor não me deixou indiferente, por isso há esperança.

5/10


Vanessa

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Um passito para a frente, dois para trás

Vanessa vai toda contente trocar uma raspadinha, no meio de quatro ou cinco*, que a contemplou com o exorbitante prémio de um euro. Sentia-se milionária, como é óbvio. "Mas, Vanessa, tu não andas sempre a dizer que és uma pessoa azarada?" Calma, amigos. Continuem a seguir a narrativa.

Para não parecer gananciosa e porque os seus instintos estão estragados, Vanessa troca aquela por outra raspadinha e após alguma ponderação ainda compra outra, paga com uma nota de cinco e recebe troco.

Contexto: há uma tabacaria no fundo do supermercado e Vanessa caminhava em direcção à saída quando...

Como sempre, Vanessa faz malabarismos com as mãos e põe as moedas ao calhas na carteira, que diga-se de passagem já não vai para nova e tem uns buracos. Não se sabe se foi de um buraco que caiu ou se foi das mãos que escorregou uma moeda de um euro, claramente na fase rebelde da adolescência, que conseguiu deslizar para debaixo do armário dos medicamentos da primeira caixa do supermercado, junto à porta de saída.

Acontece que o espaço para onde a moeda deslizou é apenas suficiente para lá caber uma moeda ou um prego pequenino ou um bocado de cotão e um pedaço de algo que já fora comestível e muito pó. Vanessa sabe disso porque, por incentivo do polícia que testemunhou o acontecimento, que até pensava que a moeda era de dois euros, pediu à moça da caixa para lhe arranjar um pedaço de cartão e toca de tentar recuperar o investimento. Antes disso, tentou o feito com um panfleto. O investimento não foi de todo recuperável com um ou outro.

Vanessa ficou triste, especialmente porque na indecisão sobre o que vestir nesse dia, tinha-se decidido por umas calças também elas rebeldes, que gostam de deslizar perna abaixo, o que não tornou a tarefa de se agachar lá muito agradável, e pensando no perigo de mostrar partes anatómicas normalmente apoiadas numa cadeira o dia todo versus a perda de um euro, considerou a hipótese de deixar a moeda quieta, que se ela tinha tanto apego pelo armário, claramente era uma moeda em plena crise de identidade e precisava de um tempo.

Pensem nisto, amigos que não acreditam quando vos digo que tenho muito azar. Fui trocar uma raspadinha que tinha um euro, mas que tinha custado um euro. Depois troquei-a por outra e ainda comprei outra. Depois perdi um euro do troco. Junte-se a isto as outras quatro ou cinco raspadinhas das quais apenas uma tinha o prémio, fora as outras todas ao longo da vida compradas na esperança de um dia a sorte me abonar.

Vou ouvir a música do Frozen o dia todo para esquecer.

* Quero apenas explicar que normalmente não sou viciada em raspadinhas. O que acontece é que sempre que saio com amigos e eles pagam alguma coisa, para depois serem casmurros e não aceitarem que eu lhes pague, eu uso o dinheiro para comprar raspadinhas, que assim eles já aceitam. Toda esta série de acontecimentos desafortunados teve portanto como causa a M. não ter aceite que lhe pagasse há duas semanas. Agora a M. está de férias, por isso tive de vir para aqui desabafar o meu desfortúnio, quando devia estar a trabalhar para recuperar aqueles euros todos que já perdi em raspadinhas. "Let it go, let it go..."

Vanessa

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Wonder Woman foi uma maravilha

Finalmente uma heroína como deve ser. Finalmente uma mulher a realizar um filme de super-heróis. Finalmente um homem como personagem secundário. Finalmente cenas de luta credíveis com uma mulher. Finalmente pernas longas e fortes, não longas e com aspecto de braços. Finalmente emoção, mas também acção.

Já percebi a razão pela qual os homens me parecem sempre tão mais confiantes, entusiasmados e às vezes primitivos em relação às mulheres. Depois de ver uma mulher a dar cabo dos maus da fita em Wonder Woman, Mulher Maravilha em português, também eu me senti confiante, entusiasmada e pronta para qualquer luta.

Felizmente Diana, personagem principal, não é como o Batman e o Super-Homem, tão preocupados com a humanidade que evitam matar pessoas, mas depois nos últimos filmes são hipócritas e andam para ali a dar cabo de cidades inteiras. Diana não tem problemas em desatar à porrada e seja o que deus quiser. Maravilha.

Se quiserem um resumo do filme, aquilo é a estória de uma mulher criada por mulheres, todas fortes, musculadas e inteligentes, num mundo paralelo que é invadido por homens do nosso mundo em tempo de guerra. Essa mulher decide vir para o nosso mundo com um homem que lhe diz aquilo que pode ou não fazer. A mulher está-se nas tintas para o que ele diz e faz na mesma, e o assunto fica resolvido na maioria das vezes.

É pena que só em 2017 tenhamos um filme deste género com uma mulher super-heroína como protagonista. Mas finalmente posso perguntar a um homem, de forma condescendente como se quer, se foi ao cinema com a companheira ver o filme, em vez de ser o contrário porque dantes quase só havia homens em filmes de super-heróis, ou quando a pergunta era dirigida a homens, era porque se tratava de uma comédia romântica.

Generalizações e comentários preconceituosos à parte, este filme merece ser visto por mulheres e homens.

Vanessa

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Mas que drama, D.A.M.A.

"Se sim tasse bem, se não tasse bem também" escreveu a banda D.A.M.A. porque, e passo a citar da sua conta no Twitter, "Em Português, o Pretérito Imperfeito no Subjuntivo do verbo é Estasse, abreviado ‘Tasse." O tweet era mais longo, com uma frase em jeito de prefixo de mau humor em resposta à moça que lhes corrigiu o português com um simples "'Tá-se" na rede social: "Olá Sofia. Em que língua?" Como se não bastasse, ainda temperaram o comentário com uma bela de uma hashtag #thinkbeforeyouspeak (pensa antes de falares). 

Com contexto é melhor. Assim é o comentário inteiro: "Olá Sofia. Em que língua? Em Português, o Pretérito Imperfeito no Subjuntivo do verbo é Estasse, abreviado ‘Tasse. #thinkbeforeyouspeak". Verdade seja dita, a banda desculpou-se a Camões e à fã em questão, mas eu não consegui esquecer o caso. Em vez de recalcar o acontecido, a minha memória insiste em lembrar-me que há pessoas que não sabem usar um vocativo.

Um dos detalhes que me assombra foi ter visto uma ou duas notícias sobre todo o escândalo e ficar a saber que D.A.M.A., banda sobre a qual nunca gastei um pensamento, é uma sigla que agora associo a um erro de concordância: Deixa-me Aclarar-te a Mente Amigo. Por esta razão, refiro-me à banda D.A.M.A. em vez de dizer "os" D.A.M.A., caso contrário estou a dizer os Deixa-me Aclarar-te a Mente Amigo, e já basta a confusão que me faz não haver ali uma vírgula antes do amigo e estes moços terem sido arrogantes na sua ignorância.

Volto a referir que a banda pediu desculpas em público, na mesma rede social onde toda a questão se desenrolou na terça-feira, mas volto também a referir, caso não tenha ficado claro a quem lê este blogue, que o mau português me dá nervos gramaticais, facto que explorei neste belo poema e ainda neste.

A moral desta estória é com certeza pensar antes de falar, mas mais importante que isso, que da oralidade só reza a estória quando há pontos acrescentados, ou algo do género que eu também não sou perfeita, bem mais importante é pensar antes de escrever. Especialmente nas internet. Especialmente se forem famosos. Espero ter aclarado a vossa mente, OLHEM PARA ESTA LINDA VÍRGULA QUE SE SEGUE, amigos.

Isto ficou um pouco confuso para quem não acompanhou a estória, por isso está aqui uma notícia com os factos como se aprende na escola de jornalismo, como quês, quandos, comos, quems, etc. 'Tá-se bem?

terça-feira, 6 de junho de 2017

Buddha bowl ou de como o que sempre fiz tem um nome giro

Buddha bowl ou tigela do Buda é o nome que se dá quando se misturam generosamente vários componentes essenciais numa taça, nomeadamente hidratos de carbono, grãos, vegetais e/ou fruta, proteína e etc. 

Sempre o fiz mais ou menos assim, mas gostei do nome. Normalmente, quando faço refeições assim, mantenho-as veganas ou vegetarianas porque acho que ficam mais zen sem produtos animais.

Como preparo os ingredientes em separado e mantenho-os em caixas para construir os pratos, acabo por comer o mesmo com algumas variações ao longo da semana. Esta é a mais recente: arroz jasmim com cominhos, brócolos cozidos, couve lombarda e cenoura e cebola roxa temperados com coentros, feijão de caril, chucrute de compra (este, do Celeiro), meio abacate pequeno, uma pitada de pimentão vermelho e pimenta preta.
Nota: isto é um prato fundo, não uma tigela, porque não tenho tigelas giras nem fundas o suficiente.

Vanessa

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Em crescimento

É quando o nosso cérebro é precoce e nem tem capacidade para o perceber que vivemos os melhores anos das nossas vidas. É uma partida cruel. Um presente envenenado. Só quando chegamos a adultos é que percebemos a ironia do destino. Quando o tempo já foi, queremos é voltar para trás. Mas foi-se.

É o mesmo que termos quem nos diga que já fomos muito felizes, o mais felizes que vamos ser na vida. 

Só que não nos lembramos.

É o mesmo que estarmos a desfrutar da melhor refeição das nossas vidas, para depois vir o chefe de cozinha dizer que já comemos a sobremesa e que gostámos. Só que não nos lembramos. 

É estarmos no potencial criativo quando ainda nem sabemos usar o nosso cérebro na totalidade.

É para esquecer.

Tudo isto é muito deprimente. Está uma pessoa nos 30, não fez nem metade do que previa já ter concluído por esta altura, e calha ser dia da criança. Má onda. Pior: estava a tirar a roupa do estendal, que é virado para um parque infantil, e o meu pai perguntou-me se não queria ir lá abaixo brincar. Engraçadinho.

Para piorar, andei hoje mais do que num mês inteiro e está assim um frescote estranho. Resultado: sinto-me uma velha resmungona que prevê certos estados climatéricos nos ossos. E falhas de memória.

Vanessa

quinta-feira, 1 de junho de 2017