quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Jornalixo V ou de como os millennials "optam" por casas pequenas

Recorrendo ao sarcasmo para não chegar ao insulto face ao artigo do Expresso intitulado Millennials optam por casas mais pequenas, e sendo orgulhosamente millennial por opção, já que como é óbvio escolhi a minha data de nascimento, como todos os da minha geração, tenho também a dizer que no meio de tantas outras opções, além de optarmos por casas mais pequenas, nós millennials optamos também pela precariedade. Não satisfeitos com as condições de vida das gerações antecedentes, optamos por algumas condições piores, assim como optámos por habitar este planeta mesmo com as suas crises económicas, aquecimento global e recursos limitados.

Chamar à selecção de casas mais pequenas por parte da minha geração de opção é tão correcto como chamar opção à escolha do planeta Terra em vez de Marte para habitar. É um acto tão opcional quanto: escolher trabalhar a recibos verdes quando a outra opção seria não trabalhar de todo ou trabalhar de borla num estágio, escolher emigrar quando a outra opção é lidar com o que foi referido primeiro, escolher adiar outras opções de vida como casamento e filhos pelo que já foi referido e por várias outras razões. Tantas opções que temos. Não admira que sejamos uns mimados que não querem trabalhar e sair de casa dos pais e etc.

Este tipo de artigos faz parte de uma moda que tenho observado nos meios de comunicação, uma moda que consiste em tornar agradável, trendy e aprazível uma inevitabilidade mascarando-a de escolha ou tendência. Como é óbvio, se nos fosse possível morávamos em casas grandes. Mas não é. Duh.

Optar por casas pequenas é tão inevitável como eu agora pensar que devia ter optado por não ler o artigo.

Vanessa

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A cadeia alimentar moderna

Várias notícias hoje dão conta de que várias espécies de peixe têm confundido plástico com comida e por isso introduziram o plástico na cadeia alimentar. Ora, todos sabemos que na verdade o real responsável pela introdução do plástico na cadeia alimentar é o Homem, aquela criatura que está no topo dessa cadeia.

Por isso agora a cadeia alimentar moderna tem no topo e no fundo, indirectamente, o Homem. Diz a ONU que "se nada for feito e se continuarmos neste ritmo, em 2050 haverá mais restos de plásticos nos oceanos do que peixes." O que na verdade é aquilo que merecemos. Mas não é o que merecem todas as outras criaturas com quem "partilhamos" (aspas porque na realidade somos como um vírus destruidor) o planeta.

De acordo com a Organização das Nações Unidas, um milhão de aves e 100 mil mamíferos marinhos morrem todos os anos devido à poluição por plástico. Para colocar isto em perspectiva, segundo a Fundação Oceano Azul, são produzidos anualmente no mundo a mesma quantidade de plástico quando pesa toda a humanidade: 300 milhões de toneladas. É estimado que desse belo número, oito milhões acabem por habitar o oceano.

Como tudo o que diz respeito ao mundo moderno, so há pouco tempo começámos a medir as consequências da utilização do plástico, mas ele está aí, nos oceanos e até no nosso sal de mesa, como foi noticiado há pouco tempo. É mais uma das heranças do uso de combustíveis fósseis que se infiltrou no quotidiano. Continuamos, no fundo, como homens das cavernas, ignorantes e impávidos, mas agora com uma grande quota-parte de culpa. Quem semeia ventos, colhe tempestades. Quem semeia plástico, colhe nada. Passo a piada deste nada como substantivo e não como verbo, porque isto não tem graça nenhuma. Assim não há arca de Noé que nos safe.

Vanessa

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

E o sono o vento levou

Podia continuar a queixar-me do vento por si só, do barulho que faz que realmente não ajuda a embalar uma pessoa com insónias, mas entretanto e por ironia — ironia no sentido em que o vento viu-lhe dedicado aqui um post que fala precisamente do sujeito de todo este predicativo que se segue — os estores do meu vizinho de cima foram à vida. Não testemunhei o evento, mas tenho pena. Tenho pena porque hoje fui acordada com uma sinfonia de ferramentas, que não saberia precisar, proveniente do tecto no cimo da minha cama. 

Posto o desassossego que se seguiu, merecia ter estado na primeira fila quando o vento levou os estores aos meus vizinhos, a acreditar que foi mesmo isso que aconteceu. O ruído prolongou-se por espaços de tempo esporádicos ao longo do dia. Estão a ver como nos filmes de terror às vezes colocam uma música assim baixa e vibrante a anteceder fenómenos assustadores e uma pessoa fica em suspense porque nunca sabe quando é que esses fenómenos a vão assustar? Foi assim o meu dia. Sempre à espera da sinfonia, que culminou com uma orquestra, já a tarde ia avançada, de despojos atirados do primeiro andar cá para baixo.

O bom disto tudo é que hoje nem sequer dei pelo vento.

Vanessa

terça-feira, 8 de agosto de 2017

E tudo quer o vento levar

Eu sei que este vento tem explicação meteorológica, um anticiclone com mais um ingrediente qualquer. 

É tudo menos esta explicação aquilo em que penso quando os cabelos se me colam aos lábios de batom e o comprimento do lenço preso ao pescoço, para evitar resfriados que o vento gosta de cultivar na minha garganta, se vai enfiar entre as pernas e fico a parecer uma humana com cauda de cor de laranja.

Enquanto trabalho, o vento bate-me à janela como convite, mas depois é tudo menos convidativo quando meto os pés na rua. As persianas piscam os olhos e nunca ouvi um piscar de olhos tão sonoro como este. Parece-me antes que vou ficar sem persianas e depois lá se vai a privacidade de trabalhar junto à janela e poder espreitar os transeuntes sem eles me verem a mim, de pijama e caneca na mão e cabelo desgrenhado.

Este tem sido um verão muito esquisito, com vento e ar frio que se entranha pela frincha da janela e me faz beber chás. Os dedos gelam ainda antes de conseguirem alcançar o ritmo que o teclado pede. Vejo notícias de sol e praia, mas é tudo o que menos me apetece, porque parece outono ou um inverno em fase final.

É tudo. Só me queria queixar do vento.

Vanessa